As mulheres da Segunda Guerra Mundial. Por Carlos Lopes

Surpreendentes imagens das mulheres que participaram de missões na Guerra.

As “Bruxas da Noite”: Rufina Gasheva (848 missões noturnas, Heroína da URSS), Irina Sebrova(1004 missões noturnas, Heroína da URSS), Natalia Meklin (980 missões noturnas, Heroína da URSS), Marina Chechneva (980 missões noturnas, Heroína da URSS), Nadezhda Popova (825 missões noturnas, Heroína da URSS), Sima Amosova (555 missões, condecorada seis vezes por bravura), Yevdokia Nikulina (600 missões, Heroína da URSS), Yevdokia Bershanskaya (comandante da unidade, Heroína da URSS), Maria Smirnova (940 missões, Heroína da URSS), Yevgenia Zhigulenko (773 missões, Heroína da URSS)

Toda a coisa pareceu, no início, estranha.

Um amigo – um grande amigo, pois nossa amizade subsiste a 40 anos de diferenças, sobretudo, ideológicas – enviou-me, algum tempo atrás, um artigo (quase um livro) sobre o tratamento que receberam, após a libertação do nazismo, as mulheres que, usando uma expressão educada, se relacionaram com ocupantes nazistas, sobretudo na França, mas também em outros países ocupados por Hitler.

Bem entendido, ele não estava me provocando. Pelo contrário, estava tomado por um legítimo senso de humanidade.

Os leitores devem imaginar as fotos que ilustravam esse texto: mulheres de cabeça raspada, mulheres untadas com piche e penas, mulheres desfilando nuas no meio da multidão com os filhos, que tiveram com nazistas, no colo.

Horrível, mas, sinceramente, a lamentação sobre essas mulheres pareceu-me mais revoltante que o seu destino – que, a julgar por “Malèna”, o filme de Giuseppe Tornatore, não durou muito tempo, se é que o caso da personagem interpretada por Monica Bellucci pode ser generalizado.

Talvez seja um problema pessoal: sou filho de uma senhora que considerava seu maior orgulho de militante ter participado das manifestações pela entrada do Brasil na guerra contra o nazi-fascismo, quando tinha 12 ou 13 anos.

Mas duvido. Houve coisas horríveis – moralmente horríveis – sob a ocupação. O ódio contra aquelas mulheres não foi, como dizia o texto, a tentativa de povos que se conformaram com a ocupação nazista de exorcizar seu próprio comportamento.

É verdade, aquelas mulheres que aparecem nas fotos eram, obviamente, as que não conseguiram fugir.

Quanto a, por exemplo, Madame Chanel, que passou toda a ocupação nazista no Ritz, acompanhada daquele a quem chamava “o meu alemão” (que era um membro da “inteligência” nazista), evadiu-se para a Suíça, onde ficou alguns anos contando histórias mirabolantes.

Chanel, aliás, é um exemplo importante quanto à moral dessa espécie de colaboracionismo sexual. Em 1943, em um almoço na Côte d’Azur, ela expressou o que achava da ocupação nazista: “A França teve o que merece!”, provocando a reação da esposa do príncipe de Faucigny-Lucinge, que lhe deu as costas. Alguns dias depois, a princesa de Faucigny-Lucinge foi presa pela Gestapo, que, de repente, lembrou-se que ela era, também, baronesa d’Erlanger, ou seja, era de origem judaica (cf. Antony Beevor e Artemis Cooper, “Paris After The Liberation 1944-1949”, Penguin Books, 3ª ed. revisada, 2004, pp. 134-135; depois da publicação desse livro, descobriu-se que a colaboração de Chanel com os nazistas foi muito maior, muito mais próxima – e muito mais repugnante – do que isso: cf. Hal Vaughan, “Sleeping with the Enemy: Coco Chanel’s Secret War”, NY, Knopf, 2011).

Realmente, é injusto que Chanel tenha escapado ilesa, enquanto outras mulheres tenham sido expostas nas ruas das cidades da Europa. Mas o caso de Chanel dificilmente foi único – em arrogância e em deduragem. A lógica dessa espécie de relacionamento, sob a ocupação nazista, não é, como disse um autor favorável a Chanel, “apenas envolver-se romanticamente”.

Infelizmente, quando se trata de uma guerra nacional contra uma ocupação – e, no caso, repetimos, tratava-se da ocupação nazista – é moralmente monstruoso lamentar o tratamento ao que era visto (com boas razões) como traição ao povo e ao país.

Na maioria dos casos, a atitude da Resistência foi a de impedir que o ódio do povo chegasse às últimas consequências.

Em “O Olho de Vichy”, documentário de Claude Chabrol – ele próprio filho de um dirigente da Resistência Francesa -, aparece a história da foto do garoto pescando no Sena, que virou tema da propaganda colaboracionista durante a ocupação da França.

Na verdade, o garoto tivera seus pais presos pelos nazistas – e tentava matar a fome, que era permanente para quase todos os parisienses, sob o tacão nazista.

Mas houve quem preferisse, diante dessa situação, aderir, de uma ou outra forma, ao inimigo; não se passava fome, era muito mais confortável – mas, para isso, claro, na maioria desses casos, era preciso desenvolver uma arrogância repulsiva em relação à população da qual saíram. Daí para a delação, é menos de um passo. Que depois tenham sofrido as consequências, nada tem de espantoso.

Gostaríamos muito que fosse diferente, e que tudo corresse de maneira mais civilizada. Aliás, também gostaríamos que os nazistas fossem mais civilizados, ou seja, que não fossem nazistas. Mas há coisas que não dependem da nossa vontade – muito menos quando ela é retroativa.

AS MULHERES

Porém, o mais aberrante nessa literatura neo-colaboracionista sobre o fim da II Guerra Mundial – pois já existe um estoque de livros, e crescente, em todo o mundo, com esse conteúdo – é que essas mulheres de que tanto se lamenta o castigo, foram absoluta exceção (se é que existem exceções absolutas) em todos os países ocupados pelos nazistas ou em guerra com eles.

Pelo contrário, em todos esses países, as mulheres foram, se assim podemos dizer, a alma da luta. Aliás, não podemos dizer isso, pois elas foram a própria luta, ainda que não sozinhas. Por isso, dizer que elas foram a “alma” da luta é algo impreciso, que subestima o seu papel naquele momento em que a humanidade – isto é, a civilização – lutava por sua sobrevivência.

Quem ficou como símbolo da luta espanhola – que se estendeu ao mundo todo – contra o fascismo?

Dolores Ibárruri, La Pasionaria.

É dela o chamado à luta, logo depois que Franco, sustentado por Hitler e Mussolini, declarou guerra à democracia: “¡Mujeres, heroicas mujeres del pueblo! ¡Acordaos del heroísmo de las mujeres asturianas en 1934; luchad también vosotras al lado de los hombres para defender la vida y la libertad de vuestros hijos, que el fascismo amenaza!” (Discurso de 19 de julho de 1936).

Foi um símbolo tão poderoso, que o mundo somente teve certeza de que a ditadura franquista tinha caído, quando ela voltou à Espanha, em 1977. No entanto, La Pasionaria era mais que um símbolo. Era uma pessoa – uma mulher.

Ou Zoya Kosmodemyanskaya. Ou sua companheira de unidade militar Vera Voloshina. As duas tremendamente torturadas e depois enforcadas pelos nazistas durante a Batalha de Moscou.

Uma testemunha do assassinato de Vera Voloshina relatou, depois, o final do seu martírio:

– Eles a trouxeram, a pobre, de carro, para a forca, e ali o laço balançava no vento ao redor dos alemães, havia um monte deles. E eles trouxeram os nossos prisioneiros, que trabalhavam atrás da ponte. A menina estava no carro. No começo, não era visível, mas quando as paredes laterais foram abaixadas, eu engasguei. Ela estava, coitada, apenas com roupa de baixo, e, mesmo assim, rasgada e toda suja de sangue. Dois alemães gordos, com cruzes negras nas mangas, subiram no carro, para levantá-la. Mas a menina afastou os alemães e, agarrando-se ao carro com uma das mãos, ergueu-se. A outra mão parecia quebrada, pendia como um chicote. E então ela começou a falar. No começo, ela disse algo que parecia alemão, e depois na nossa língua.

“Eu”, disse ela, “não tenho medo da morte. Meus camaradas vão me vingar. Nós venceremos de qualquer maneira. Você vai ver!”

E a menina começou a cantar.

– E você sabe qual música?

– A mesma que toda vez eles cantam nas reuniões e tocam no rádio pela manhã, à tarde e à noite.

– “A Internacional”?

– Sim, essa mesma música. Mas os alemães estavam de pé e ouvindo silenciosamente. O oficial que comandou a execução gritou algo para os soldados. Eles jogaram o laço no pescoço da garota e desceram do carro.
O oficial correu para o motorista e deu a ordem de se mover. Ele se sentou, todo branco, veja, ele ainda não estava acostumado a enforcar pessoas. O oficial pegou um revólver e gritou algo para o motorista. Pareceu que ele estava xingando. O motorista pareceu acordar e deu partida no carro
.

A garota ainda conseguiu gritar tão alto que meu sangue congelou em minhas veias: “Adeus, camaradas!”.

Quando abri os olhos, vi que ela já estava pendurada (v. o livro de Georgy e Irina Frolov, “Москвички-партизанки – Герои Отечества”, Ozon.ru, 2004).

Aqui, uma pequena amostra das mulheres que lutaram contra o fascismo – e foram, muitas com a doação da própria vida, vitoriosas. Como foram milhões, não chega, nem pode, ser uma homenagem. Apenas uma amostra.

Preferimos não usar fotografias “colorizadas” – e publicar algumas (talvez muitas) cuja qualidade, em termos visuais, não é grande. Mas nos pareceu desnecessário embelezar aqueles momentos.

Espanha: “Y una mañana todo estaba ardiendo”

Guerra Civil Espanhola, 1936

A Guerra Civil Espanhola foi, para os ocidentais, o prenúncio do que viria (no Oriente, seria a segunda invasão japonesa da China, em 1937 – a primeira fora em 1931, quando a Manchúria fora anexada pelo império nipônico).

O verso acima é de Pablo Neruda, que, na época, estava na Espanha: “Y una mañana todo estaba ardiendo/ y una mañana las hogueras/ salían de la tierra/ devorando seres,/ y desde entonces fuego,/ pólvora desde entonces,/ y desde entonces sangre./ Bandidos con aviones y con moros,/ bandidos con sortijas y duquesas,/ bandidos con frailes negros bendiciendo/ venían por el cielo a matar niños,/ y por las calles la sangre de los niños/ corría simplemente, como sangre de niños” (Pablo Neruda, Explico algunas cosas).

Apesar da derrota para o fascismo – somente a URSS apoiou a democracia espanhola, enquanto Hitler e Mussolini cumularam Franco de tropas e aviação de guerra – a luta na Espanha seria decisiva para as batalhas que viriam.

Guerra Civil Espanhola, 1936
Barcelona, 1936
Esperanza Rodríguez, combatente antifascista na Galícia, 1936
Esta é uma das fotos tiradas por Gerda Taro na Espanha. Ela e seu marido, o húngaro Endre Friedmann, creditavam suas fotos com o pseudônimo “Robert Capa”. Gerda, alemã e anti-hitlerista, morreu durante um ataque da aviação alemã a Villanueva de la Cañada. Depois de sua morte, o marido continuou utilizando o nome Robert Capa – e tornou-se um dos maiores fotógrafos da História.
Fanny Schoonheyt, voluntária holandesa no combate ao fascismo na Espanha, Barcelona, maio de 1937 (foto: Agustí Centelles).
Os intervalos da luta na Espanha
Marina Ginestá, francesa de família catalã, no telhado do Hotel Colón, em Barcelona, no dia 21 de julho de 1936 (foto: Juan Guzmán, nome adotado pelo fotógrafo alemão Hans Gutmann)
Guerra Civil Espanhola
Voluntárias antifascistas, próximas a Madri
Nas Brigadas Internacionais
Nas trincheiras
Guerra Civil da Espanha
La Pasionaria

O mundo contra o nazismo

Josephine Baker não foi apenas a rainha do Folies Bergère – isto é, do teatro de revista francês. Fez parte da Resistência, após a ocupação da França pelos nazistas. Na foto, depois da libertação de Paris, a tenente Baker, do exército francês.
Esta é Ada Gobetti, guerrilheira contra a ocupação alemã na Itália, escritora e líder antifascista. Depois da guerra, ela seria uma das fundadoras da Federação Democrática Internacional da Mulher (FDIM).
A defesa antiaérea na Inglaterra, durante os bombardeios nazistas.
O treinamento das voluntárias, na Inglaterra, à espera da invasão nazista.
As mulheres na defesa antiaérea, em Londres.
A defesa antiaérea do território inglês

Fuente: Vermelho

Fantasmas que nos assombram ou a volta dos mortos-vivos

Por Pedro Tierra

Fundação Perseu Abramo

Os fatos que emergiram, nos últimos dias, dos arquivos da CIA, 44 anos depois e deixaram surpresos e assombrados estudiosos, pesquisadores, jornalistas formadores de opinião e simples cidadãos que não se renderam à manipulação midiática e cultivam algum senso crítico, nos impõem algumas perguntas.

Se permaneceram ocultos por mais de quatro décadas, por que vêm a público agora às vésperas de um processo eleitoral que definirá os rumos do maior país da América Latina nos próximos anos?

Como explicar que a tirania responsável por elaborar uma Doutrina de Segurança Nacional – para legitimar-se e impor-se ao Brasil por 21 anos e ainda vender para a sociedade, com o auxílio da Rede Globo de Televisão e outros meios de comunicação, a imagem de zelo pela soberania do país – tenha sido agora exposta por singelas revelações de um despacho entre quatro generais, um deles o próprio presidente da República, provenientes dos serviços de inteligência dos EUA?

As instituições brasileiras geradoras desses documentos afirmam haver incinerado os arquivos dos órgãos de repressão relativos àquele período. A pergunta é: antes de incinerar foram enviadas cópias de segurança para os arquivos da CIA?

Pelo breve relato contido no memorando não foram muitos os participantes da fatídica reunião de abril de 1974. Apenas quatro pessoas: os Generais Ernesto Geisel, João Baptista Figueiredo, Milton Tavares de Souza e Confúcio Avelino. Se considerarmos o teor macabro das decisões ali tomadas e o silêncio criminoso de quarenta e quatro anos sobre elas, cabe perguntar: quem dos participantes da reunião estava a serviço da CIA e transmitiu essas informações para o órgão de espionagem dos EUA?

Evidentemente não seremos nós, que naquele momento nos encontrávamos entre os alvos da repressão sanguinária do regime militar, que devemos oferecer as respostas, mas as instituições responsáveis – leia-se as Forças Armadas – pelos fatos e pela guarda dos documentos que agora, como fantasmas, nos assombram.

Os presos políticos encarcerados em diferentes presídios do país naqueles anos, com a cabeça sob a espada do General Geisel, ainda que não soubessem das deliberações específicas da reunião de abril de 1974, já denunciavam o aniquilamento dos opositores como política de Estado.

Do Presídio do Barro Branco, em S. Paulo, saiu, clandestinamente, um documento-chave que nos ajuda a elucidar a suposta disjuntiva construída por narradores e intérpretes da história daquele período sobre a presumida “autonomia” da “tigrada” que barbarizava nos porões. Tratava-se de uma Carta ao presidente do Conselho federal da OAB. O documento ficou conhecido como “Bagulhão”, expressão emprestada do jargão dos detentos correcionais para significar algo perigoso.

“Em sua origem, o documento propunha-se a responder a uma solicitação pública do então Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, Dr. Caio Mario da Silva Pereira, que alegava não possuir fatos concretos e respostas objetivas provindas de pessoas vítimas de prisão irregular e de arbitrariedades policiais; e terminou como a mais contundente denúncia de torturas e torturadores formulada e assinada por presos políticos brasileiros – no caso, o coletivo de presos encarcerados no Barro Branco, o Presídio Político de S. Paulo, nos idos de outubro de 1975”, diz o parágrafo de abertura da apresentação do documento editado pela “Comissão da Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva”, firmada por um dos signatários, Reinaldo Morano Filho, médico, advogado e prisioneiro político do regime, de agosto de 1970 a março de 1977.

Esclareço, sobretudo aos mais jovens, que naquele período da história existia no Brasil uma organização da sociedade civil conhecida por seu empenho na defesa do Estado Democrático de Direito, na denúncia do golpe e das arbitrariedades da tirania imposta ao país em abril de 1964. Essa organização se chamava Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

O documento enviado ao Presidente do Conselho Federal da OAB listou pela primeira vez os nomes de 233 torturadores que, naquele momento, atuavam no submundo dos SNI, DOIs-CODIs, CIEx, CENIMAR, CISA, DPF e Dops. Àquela lista agregou uma minuciosa descrição dos instrumentos, métodos e técnicas de tortura utilizados pela estrutura do estado policial cuidadosamente montada pelo general Golbery do Couto e Silva, desde os primeiros anos de vigência do golpe, quando esteve à frente do SNI. A ação desse aparato foi metodicamente centralizada ao longo do período para alcançar os objetivos estratégicos do golpe.

Os 443 assassinados e “Desaparecidos” políticos com nome e sobrenome, contabilizados pela CNV a partir daquelas denúncias, não deixam dúvida a respeito da política de aniquilamento dos opositores. Assim como a lista jamais desmentida dos 233 torturadores apresentada pelo documento e publicada numa espécie de “Edição coragem”, pelo jornal Em Tempo, publicação da imprensa alternativa de resistência à ditadura.

A ofensiva conduzida pelo governo Geisel – a execução dos membros do Comitê Central do PCB, o Massacre da Lapa que dizimou a Direção do PCdoB, em 1976, mais os assassinatos no varejo que somam quase uma centena de militantes homens e mulheres – era funcional com relação a dois propósitos do regime: (1) assegurar pré-condições para a anunciada “Abertura Lenta, Gradual e Segura” e (2) o movimento de recuo dos militares em direção aos quartéis, consumado com a autoanistia de 1979. Em suma, aniquilar a esquerda, em qualquer das suas expressões. Fosse a esquerda armada ou aquela que atuava na oposição parlamentar. Liquidá-las como alternativas que pudessem emergir numa democracia tutelada, no período pós-ditadura; e realizar sob forte proteção, para evitar baixas, a retirada dos militares da cena política do país. Este objetivo foi alcançado com pleno êxito.

Para frustração dos generais e seus herdeiros, no entanto, a História se encarregou de gestar uma nova esquerda que brotou, com mais vigor e se constituiu como alternativa para conduzir o país a partir do movimento operário no final dos anos 70.

Já não é sustentável insistir no refrão de que toda a violência perpetrada contra os opositores políticos do regime foi obra da “tigrada”. Simplesmente porque a “tigrada” que operava desde os centros de tortura executava o extermínio dos opositores em estreita sintonia e com o aval dos seus comandantes. Estava consciente de que podia contar plenamente com sua proteção. O delegado Gaeta, que atendia no DOI-CODI do II Exército pelo codinome de “Mangabeira” me dizia em 1973, sem alterar a voz, na grade da cela onde me encontrava, na Rua Tutoia: “Todos os governos precisam de nós. O atual e os futuros. Essa é a nossa segurança”. Estava absolutamente convicto do que afirmava.

A Lei de Anistia de 28 agosto 1979 foi a resposta cabal de que os comandantes cumpriram seu compromisso com a “tigrada”. Gaeta tinha razão. Antes de qualquer outra consideração a Lei 6.683/79 define já no art. 1º os “crimes conexos”. E, com essa singular contribuição à ciência do direito das nações, sacramentava a impunidade dos agentes públicos que cometerem crimes contra a humanidade naquele período, entre eles o general presidente que a assinou e seus antecessores.

Volto ao documento dos presos políticos de S. Paulo. Eles concluem:

“Sr. presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil: Eis o relato objetivo e pormenorizado que nos sentimos do dever de apresentar, mesmo não excluindo a possibilidade de represálias.

Face a toda essa situação de extrema violência dirigida contra os opositores ao regime, mais uma vez reafirmamos nossa convicção de que ela só terá fim quando forem eliminadas as causas de sua existência. Assim, firmemente apoiamos a luta pelos direitos da pessoa humana em nosso país, dela participando. Em última instância, ela é parte da luta mais geral que travamos contra a opressão e a repressão vigentes no Brasil.

Presídio da Justiça Militar Federal (Presídio Político de São Paulo) 23 de outubro de 1975”.

Depois de datado e firmado, o documento aduziu uma nota que sintetiza e confirma de forma irrespondível todo o horror que denunciava no seu conteúdo:

“Em Tempo:

Este documento já estava concluído quando tomamos conhecimento da notícia do “suicídio” do jornalista Vladimir Herzog, ocorrido dia 25 de outubro nas dependências do II Exército – CODI-DOI (OBAN). Segundo a nota oficial expedida pelo Comando do II Exército, e amplamente divulgada pela imprensa nos dias 27 e 28, Vladimir – que havia sido intimado a apresentar-se na sede da OBAN, tendo ali comparecido na manhã do mesmo dia 25 – “foi encontrado morto, enforcado, tendo para tanto se utilizado de uma tira de pano”. Com o objetivo de corroborar com essa versão, aquele organismo divulgou um laudo pericial de causa mortis assinado pelos médicos Arildo Viana e Harry Shibata. Esclareça-se que este último, verdadeiro Mengele do Brasil de hoje, é quem sistematicamente firma os atestados de óbito de presos políticos assassinados pela OBAN.”

Vivíamos – e vivemos – o processo industrial de naturalização do absurdo. Na foto que correu o mundo vemos um homem quase de joelhos com uma tira de pano atada em torno do pescoço pendido. A cela da montagem tinha o teto muito baixo. A própria foto denuncia o duplo crime: o assassinato e a tentativa de fazê-lo passar por suicídio. Vivíamos – e vivemos – o processo industrial de naturalização do absurdo. Para que o absurdo pareça normal aos olhos da sociedade anestesiada ou pela negação do direito à informação (via censura), como ocorria na época, ou pela manipulação sistemática dos fatos como ocorre no Brasil contemporâneo. Que fantasmas vão emergir dos arquivos da CIA para nos assombrar daqui a quarenta anos?

Brasília, 21 de maio, 2018.

– Pedro Tierra (Hamilton Pereira) é um dos signatários da Carta dos Presos Políticos de S. Paulo ao Presidente da OAB, em outubro de 1975.

22/05/2018