Brasil: uma democracia na UTI respirando por aparelhos

O governante não está à altura de sua missão. Seus comandados diretos tampouco.

Tânia Maria Saraiva de Oliveira27 de Maio de 2020 às 19:01

No conhecido mito trazido por Platão no Livro II da República, “o anel de Giges” é base para discussão filosófica acerca da ganância, egoísmo, e uma série de características humanas nada aprazíveis, reveladas diante da condição trazida pelo objeto do desejo: o anel tornava seu portador invisível. Giges, um pastor, tido por simples e honesto, transforma-se em um indivíduo obcecado pelo poder, diante da possibilidade de atuar fora da vista da coletividade. A invisibilidade o corrompe, ele rouba, seduz e mata.

O manto da invisibilidade, contudo, não serve apenas para modificar e moldar comportamentos ou mesmo revelá-los. É igualmente eficaz em ocultá-los.

reunião de Jair Bolsonaro (sem partido) com seus ministros no dia 22 de abril, publicada a partir do levantamento do sigilo, pelo ministro Celso de Mello, nos autos do inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), trouxe a lume questões que ficam ocultas nas articulações que orientam a política pública no Brasil.

Solicitada pelo general Braga Netto, ministro da Casa Civil para, supostamente, apresentar e discutir um “Plano Pró-Brasil”, a reunião tratou de tudo, menos de saídas para a crise do país. As incontáveis violências verbais confluíram com a ausência de qualquer análise séria, que apontasse a busca de caminhos ou de qualquer sentimento de pesar ou de solidariedade para com as famílias dos milhares de mortos pela pandemia que assola o país.

Como afirmou o famoso humorista Zé Simão, o menos imoral na reunião foram os palavrões, proferidos aos “quilos” pelo senhor presidente contra todos os seus desafetos ou pessoas que o incomodam de algum modo. De fato, a imoralidade foi bem mais encovada. A reverberação de diversas formas de extremismo, hostilidades e preconceitos explícitos pelos presentes contra autoridades, adversários, minorias, imprensa, mostra um coletivo em um discurso caótico e alimentado pelo rancor.

Desfrutando da invisibilidade aos olhos da sociedade, Bolsonaro e os dirigentes das pastas revelaram o que lhes move. Evidencia-se a total ausência de escrúpulos de um ministro do Meio Ambiente que quer aproveitar esse “momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa” para fazer aprovar normas que flexibilizem a defesa da Amazônia, “e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.

O desprezo de um ministro da Economia por servidores públicos, quando afirma que colocou “a granada no bolso do inimigo. Dois anos sem aumento de salário”. E ainda o menosprezo e repulsa de um ministro da Educação, que quer botar os “vagabundos” do STF na cadeia e “odeia o termo povos indígenas” e “povo cigano”. Por fim, as falas desconexas do ministro das Relações Exteriores sobre a China, que  já foram mote de crise por falta de diplomacia fecham o quadro de um diálogo bizarro.

No conjunto, o vídeo é um circo de horrores, um espaço assustador, em que as falas dos cidadãos que comandam a política pública do país, além dos delírios de grandeza e da obsessão com os inimigos imaginários, são a prova viva que temos um bando de cínicos e despreparados dirigindo o país. Homens e mulheres que não possuem sequer qualquer respeito pela liturgia de seus cargos, e cuja postura lhes faz parecer tão cegos e alienados quanto o mais simplório bolsonarista que ocupa a praça em frente ao Palácio do Planalto.

O conteúdo vergonhoso e patético que conta, ainda, com a fala de Bolsonaroafirmando que o povo deve se armar, e que interferirá na estrutura das forças de segurança para proteger a família, deixa ainda mais evidente como a democracia brasileira está sendo corroída por dentro, gravemente doente. E não há remédio milagroso, os antivírus estão no interior do próprio corpo institucional.

Enquanto isso, a imprensa de todo o mundo aponta que a imagem do Brasil lá fora se desmonta totalmente. Entre domingo (24) e segunda-feira (25), diversos veículos internacionais de linha conservadora publicaram reportagens e artigos com duras críticas à postura do dirigente brasileiro. Exemplo emblemático, além do The Telegraph, é do também britânico Financial Times, em coluna do jornalista Gideon Rachman que afirma que o “populismo de Jair Bolsonaro está levando o Brasil ao desastre”.

Certo é que o governante não está à altura de sua missão. Seus comandados diretos tampouco.

Diante do cometimento de inúmeros crimes de responsabilidade e comuns, investigado no STF e com 39 pedidos de impeachment na Câmara dos Deputados até o momento – o último feito na semana passada por partidos de oposição, personalidades, juristas e mais de 400 entidades da sociedade civil organizada – é preciso que as instituições cumpram seu dever político e moral de afastar o senhor Jair Bolsonaro da Presidência da República, reencontrando-se com sua responsabilidade constitucional e suprindo a omissão que tem marcado suas condutas até aqui. 

Edição: Rodrigo Chagas

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