Roberto Fernández Retamar (1930-2019)

Fernando Morais

Com este breve texto a Casa das Américas, presidida há 40 anos por Roberto Retamar, se despede de uma das mais relevantes figuras das letras hispano-americanas. Grande amigo do Brasil, Retamar, morto ontem em Havana, aparece na foto em Ouro Preto, acompanhado de Oswaldo França Júnior, Roberto Drummond, Fernando Morais e do cubano-argentino Jorge Timossi.

A morte de Roberto Fernández Retamar é uma perda irreparável para a cultura cubana. Desde que foi lançado em 1950 com a coleção de poesia “Elegia como um hino”, seu trabalho foi abrindo canais e deixando marcas na poesia da língua espanhola, que legou textos que permanecerão para sempre como “Feliz ou normal”, “E Fernández?” ou “Com as mesmas mãos”.

Não menos relevantes são seus ensaios penetrantes e esclarecidos, que mostram a vastidão de seu pensamento e a magnitude de seu trabalho intelectual, quer nos lembremos daquele clássico da reflexão latino-americana e caribenha, “Caliban”, como se pensássemos em “Por uma teoria da literatura hispano-americana”, em sua fervorosa paixão pelo trabalho de Marti, ou em seus ensaios lúcidos sobre o papel do intelectual e os processos de descolonização cultural em nossa América.

É impossível dissociar seu nome da história da Revolução Cubana, separá-lo de um fenômeno que tem sido assunto e preocupação permanentes, tanto como cenário vital quanto como caixa de ressonância de sua figura e de seu trabalho.

Já seria muito, se esse fosse o legado de Roberto, mas sua obra literária teria que acrescentar seu ensino e sua faceta única de editor, o que o levou a dirigir várias revistas antes de assumir em 1965 o endereço da Casa das Américas, para consolidá-lo como uma das referências culturais mais importantes da nossa América.

Mas ele ainda faria mais à frente da Casa das Américas desde 1986, como continuação da heroína e fundadora Haydee Santamaría e do grande pintor Mariano Rodríguez. O privilégio de ter Roberto presidindo nas últimas décadas esta Casa contribuiu para que, sob sua liderança, ela apostasse no risco, mantendo-se fiel a si mesma, ao espírito que a viu nascer na imensa e inconclusiva tarefa de integração cultural da América Latina e do Caribe.

Por ocasião da dolorosa perda de Haydee, a Casa das Américas divulgou uma declaração em que a escrita de Roberto se torna transparente, concluindo: “É necessário dizer que ela estará conosco, em nós. Mas a partir de agora somos mais pobres, embora a honra de ter trabalhado sob a sua orientação, em voz baixa, que continuamos a sentir, orgulhosa e profundamente comovidos, ao nosso lado nos acompanha para sempre”.

Essas palavras ainda são válidas para Haydee, tanto quanto são para esse seu querido irmão que acabou de nos deixar. Nós os tornamos nossos para você, neste momento de infinita tristeza, querido Roberto.

Casa das Américas
Havana, 20 de julho de 2019.
Fernando Moraes

20 de julho de 2019 – Roberto Fernandez Retamar cruzou a fronteira da poesia para viver nas estrêlas

Pela vez terceira deixando a Rua Aurea em Lisboa, para dar de encontro com a Calzada do Ferragial no Bairro do Chiado, dava de cara com a chapelaria datada de 188.. e tal. Havía chamado minha atenção uma boina azul com pequenos quadros rojos, linda a cara do Retamar. Vou levar, comentei com Eduardo. Em novembro, dou de presente. Vinicius o de Morais, Fernando – o Pessoa, Roque Dalton e Fernandez o Retamar compartiam minhas noites, em Miramar enquanto devorava versos, tragava poemas apaixonada pela poesia, pela magia de suas rimas pelo encanto escondido trás seus versos, atravessei, 10 anos de exílio. Por vezes e não poucas ora com Nicola, com Bertha Zuno ou sozinha encontrávamos pelas ruas, na Casa, entre charlas e charlas, Retamar envolvia Brasil e Cuba em longas juras de amor amenizando a saudade.

-Chico Buarque chega amanhã contou sorrindo, da janela do carro bem ali na esquina do Carmelo. Agora, sim Havana está completa. Imagina Retamar! Os cubanos tem um dom incrustado na pele – a ternura.

Meio século passaram entre cores, versos e guitarras. Entre encontros fosse com o Comandante, vernissages, premios, em companhia da Sara Gonzalez em dias de dominó ou descargas,sua presença de intelectual brilhante atiçava nossos neurônios.

Ontem, de repente Omar Gonzalez escreve no Whatsaap – Falleció Roberto Fernandez Retamar. Tremendo punhetazo na boca do estômago, olhos marejados numa tristeza profunda. Não é fácil perder combatentes quando o fascismo toca a nossa porta. Não é fácil. No mínimo entender que a vida é assim um vai e vem constante. Que os imprescindíveis sim, como diz Silvio Rodriguez iluminam os caminhos.

En la Muerte de Roberto Fernández Retamar

Boaventura de Sousa Santos

Acabo de saber que Roberto Fernández Retamar murió en la tarde ayer, 20 de Julio. Es una pierda irreparable para la cultura cubana, latinoamericana y mundial. Lo admiré durante toda mi vida profesional y fuimos amigos desde que hace quince años me invitó como jurado del Premio Casa de Las América. Hace poco más de dos meses, durante la reciente XIII Bienal de Arte de La Habana tuve el privilegio inmenso de compartir con mi querido compañero Jorge Fornet, de la Casa de Las Américas,  más de dos horas de charla maravillosa con Roberto. Hablamos de todo, de su gran pasión, José Marti, del imperialismo, de sus tiempos en Europa y en los EUA, de la revolución cubana, del rol del intelectual en nuestros días, de poesía, de la cultura latinoamericana.

Roberto fue uno de los más brillantes intelectuales del mundo de los últimos cien años. Lo digo sin ninguna hesitación porque reconocí en el una rarísima calidad en los intelectuales del último siglo: la capacidad de conocer profundamente la cultura  europea sin ser euro céntrico,  y de conocer profundamente la cultura del “Caliban” latinoamericano sin ser trivialmente decolonial. Si los siglos que los separan no nos criaran tanta confusión, yo diría que Roberto es un ensayista tan notable cuanto Montaigne y solo comparable a el.  Y además de ensayista era un gran poeta.

Coimbra, 21 de Julio de 2019

Um dia triste.

Tremenda noticia.Se no fue uno de los más notables intelectuales de las últimas décadas. Deja una obra maravillosa, que deberemos estudiar y difundir. HLVS querido Roberto, has dejado una huella que quienes te sobreviviremos transitaremos con honor y con absoluta dedicación. Fuiste, y seguirás siendo, un faro en el caos cultural del capitalismo actual, y nos seguirás guiando con tu magnífica obra escrita. Atilio Borón